O Tesouro e a Pérola

PETER AMSTERDAM

O Evangelho segundo Mateus contém duas histórias sobre o reino que não se encontram nos outros evangelhos: “O Tesouro no Campo” e “A Pérola de Grande Valor”. Essas parábolas irmãs tratam do valor do reino de Deus e da alegria de encontrá-lo. Vejamos o que dizem:

O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Achando-o um homem, escondeu-o de novo, então em sua alegria foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.

Outrossim, o reino dos céus é semelhante a um comerciante que busca boas pérolas. E, tendo encontrado uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha, e a comprou. —Mateus 13:44–46

Ao longo da história, antes de existirem cofres ou bancos, pessoas escondiam seus bens de valor na terra, especialmente em tempos de instabilidade, como durante uma guerra. Flávio Josefo, historiador judeu da antiguidade, ao escrever sobre os resultados da destruição de Jerusalém em 70 d.C., disse:

Ainda havia grande quantidade das riquezas daquela cidade entre suas ruínas, boa parte das quais desenterradas pelos romanos… Refiro-me a ouro e prata; e o restante do mobiliário mais precioso dos judeus, escondidos pelos donos no subterrâneo, por conta das incertezas da guerra.1

Dentre os primeiros escritos judeus conhecidos como os Manuscritos do Mar Morto está o Manuscrito de Cobre, uma lista feita no primeiro século de bens que haviam sido escondidos. Esse documento dá conta de grandes quantidades de ouro e prata, assim como moedas e utensílios domésticos, enterrados ou escondidos em 60 locais diferentes. Enterrar itens de valor não era uma prática incomum. Se um indivíduo (ou uma família) enterrasse seus pertences e morresse sem que os outros soubessem da localização do tesouro, este passaria a ser de posse de quem o encontrasse. Desde então, vários tesouros foram encontrados para alegria de seus descobridores.

O homem na parábola foi um desses afortunados. Como é comum nas parábolas, encontramos aqui somente as informações essenciais à mensagem. Não sabemos quem era o homem, o que fazia no campo, como encontrou o tesouro nem o que este continha. Sabemos apenas que o encontrou e o enterrou — ou seja, não contou para ninguém — e que, em seguida, comprou aquele campo.

Jesus não entrou na avaliação moral de o homem não revelar ao dono do campo a existência de algo valioso em sua propriedade. Segundo os escritos rabínicos sobre o tema, o fato de ele ter encontrado o tesouro o tornava seu legítimo dono. Comprar a terra antes de o reclamar aumentava sua garantia de que ninguém disputaria sua posse. Como não há menção de o homem haver praticado nenhum delito e como a parábola não está discutindo uma questão ética, os estudiosos da Bíblia entendem que as ações do homem não teriam sido percebidas como moralmente reprováveis. O cerne da parábola é que esse homem ficou tão feliz por haver encontrado aquela riqueza que vendeu tudo que tinha para adquirir aquele campo.

Na segunda parábola, um comerciante busca pérolas preciosas. Na antiguidade, as pérolas eram consideradas gemas preciosas e eram altamente valorizadas. Os mergulhadores as procuravam no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico, no Oceano Índico e somente os ricos tinham o suficiente para adquiri-las. Na descrição de Plínio Segundo, escritor romano, as pérolas eram o que havia de mais precioso, tendo “o primeiro lugar” e “a mais alta classificação entre tudo que é de valor.”3

Diferentemente da história do homem que encontrou o tesouro no campo por acaso, o comerciante — muito provavelmente um atacadista, a julgar pela palavra grega usada —viajava de cidade em cidade para adquirir pérolas para revenda. Ao encontrar um exemplar de altíssima qualidade e extremamente valioso, vendeu tudo o que tinha e a comprou.

A mensagem de Jesus, encontrada nessas duas analogias, teria feito sentido para uma variedade de ouvintes. Muita gente teria facilmente se identificado com o homem que encontrou o tesouro no campo. É provável que fosse um trabalhador contratado, o administrador de uma propriedade rural ou simplesmente alguém que passava pelo lugar. O fato de ele vender tudo que tinha para comprar aquela propriedade mostra que não se tratava de uma pessoa sem posses, mas tampouco rica. Ele não esperava encontrar algo tão valioso nem era um caçador de tesouros. É provável que aqueles que ouviam a história tenham se identificado com ele e, claro, adorariam se ver em uma situação como aquela.

A história do segundo homem era palatável para outro público, tais como os comerciantes. Alguém com uma profissão como a do protagonista dessa parábola provavelmente passava, em suas viagens, em lugares onde eram vendidas pérolas. Ele estava procurando essas gemas quando encontrou uma cujo valor ultrapassa o de todas as outras que ele tinha visto até então. Ser um comerciante de pérolas significava que era um homem de posses, mas o preço daquela preciosidade exigiu que ele vendesse todos os seus bens para comprá-la. Qualquer um dos presentes pôde entender a esperança de enriquecer por meio de uma operação financeira de risco.

Encontrar por acaso um tesouro e assumir os riscos necessários para adquiri-lo é uma história cativante. O mesmo se pode dizer da ideia de viajar a lugares exóticos, encontrar uma grande oportunidade e assumi-la com êxito. Essas histórias capturam a atenção e a imaginação das pessoas.

Apesar de os meios de encontrar as preciosidades foram diferentes nas histórias — casualidade e busca intencional —, os dois homens tiveram de tomar uma atitude determinante para se apossarem das riquezas que descobriram. Além de encontrar os tesouros, tiveram de vender tudo o que tinham e comprar seus achados, para se tornaram donos dos bens que tanto queriam. Nas duas parábolas, os protagonistas se viram diante de oportunidades singulares que os forçaram a tomar decisões importantes e assumir riscos que mudariam suas vidas para sempre.

O que ensinam essas parábolas? Jesus assemelha o reino do céu a alguém que tendo encontrado algo de grande valor tudo arrisca para obtê-lo. A descoberta é marcada por grande comoção, pelo reconhecimento do seu valor e pelo entendimento de seu elevado custo. O valor dos achados explica a alegria de tomar posse deles e justifica vender tudo para obtê-los. Entrar no reino de Deus por meio do sacrifício e ressurreição de Jesus, tornar-se um filho de Deus e viver com Seu Espírito em nós é maravilhoso e de grande valor. Encontrar o reino é como achar um tesouro que vale tudo o que custa. Os dois homens das parábolas venderam tudo o que tinham para comprarem o campo e a pérola, mas sua aquisição foi mais de recompensadora. Da mesma forma, o reino de Deus vale abrir mão de tudo que temos. Seu custo exorbitante deve ser visto à luz do ganho incalculável.

Como disse o apóstolo Paulo:

Mas o que para mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo.4

Conhecer Cristo e ser parte do Reino de Deus deve ser valorizado acima de tudo. O conceito de vender tudo remete à verdade de que nenhum custo é elevado demais para se obter o reino. Entrar no reino vale a pena tudo. Manter Deus no centro de sua vida tem um custo, mas a alegria eterna e o valor incalculável de ser parte do reino é mais do que recompensador.

Se quiser mais artigos de Peter Amsterdam, visite o Espaço dos Diretores.


Notas de rodapé
  1. Josepho, Jewish Wars, 7:114–115.
  2. Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2000), 420.21 Timóteo 2:9; Apocalipse 17:4; 18:12, 16.
  3. Filipenses 3:7–9.