O Servo Fiel e o Infiel

PETER AMSTERDAM

A parábola do servo fiel e infiel é contada por dois evangelistas: Mateus e Lucas. As duas versões são muito similares, apresentando pequenas variações. Escolhemos para este estudo a versão encontrada no 24º capítulo de Mateus.

O contexto da parábola é Jesus falando aos Seus discípulos pouco antes de ser preso e crucificado. Estavam no Monte das Oliveiras, longe do público, quando os discípulos Lhe pediram: Dize-nos quando acontecerão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim dos tempos.1

Jesus então passou a falar de acontecimentos futuros, dentre os quais Sua volta: Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, com poder e grande glória.2

Então contou a parábola, tendo como pano de fundo Sua volta, chamada de parousia pela maioria dos estudiosos. Jesus disse aos Seus seguidores que ninguém sabe quando se dará Sua parousiaA respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente o Pai.3

Jesus também advertiu os crentes a se prepararem para aquele dia: Por isso estai vós também apercebidos, porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis.4

Ele então contou uma parábola que enfatiza a importância de vivermos de forma a nos prepararmos e estarmos prontos, a qualquer momento, para a parousia. Ele estabelece o contrataste entre duas atitudes conflitantes, duas escolhas que os crentes podem fazer.

Assim começou a parábola: Quem é, pois, o servo fiel e prudente a quem o Senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem o Senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que lhe confiará todos os seus bens.5

Aqui lemos de um servo6 incumbido de cuidar dos bens de seu mestre durante a ausência deste. Para isso, recebeu autoridade sobre todos os demais trabalhadores e a responsabilidade de administrar a propriedade da maneira correta. Parece que a esse servo foi concedida uma grande responsabilidade. O servo não se atenta a quando ocorrerá a volta do mestre, pois é uma informação que em nada afeta seu trabalho, mas simplesmente cumpre seus deveres diligentemente. Por isso, será grandemente reconhecido quando seu mestre retornar e, mais do que isso, será promovido à posição de administrador, responsável por todos os bens de seu mestre.

Depois de nos ser dado o cenário de um servo que, com honradez, cumpriu suas obrigações, é-nos mostrado o que poderia acontecer se a escolha do servo tivesse sido outra e as respectivas consequências de suas decisões.

Porém, se aquele servo for mau e disser consigo: O meu senhor tarde virá, e começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e castigá-lo-á, e lhe dará a sorte dos hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes.7

Nesta passagem, vemos que o servo tem um conflito interno, algo comum nas parábolas no Evangelho segundo Lucas,8 mas é uma exceção no Evangelho segundo Mateus. O mestre se ausentara e por alguma razão não voltou quando previsto, o que o servo interpretou como licença para agir impunemente. Entendeu que sua condição de supervisor o eximia de ter de prestar conta aos outros e o blindava das consequências de seus atos. Passa a agir como se o mestre jamais voltaria e como se jamais tivesse de dar conta de suas decisões. Passa a agir com injustiça e deixa com que a autoridade provisória que lhe fora conferida lhe subisse à cabeça, pelo que passa a tratar os outros servos com crueldade e violência. Aquele homem perdera o senso de decoro e comportamento adequado, e se separou dos seus pares, como se pode deduzir da frase que conta que passou a comer e beber com ébrios.

Então volta o mestre —sem aviso prévio— e encontra o servo totalmente despreparado. De alguma forma, o servo perdeu de vista o fato de que a ausência prolongada do mestre não significava que não mais voltaria. Pois voltou, julgou e condenou o servo pelas suas ações, pela sua má gestão, pela dureza e maldade com que tratou os outros.

Segundo algumas traduções da Bíblia, o servo é “cortado ao meio” o que sem dúvida é uma punição extrema. Alguns comentaristas entendem significar que o homem foi cortado da convivência com as pessoas, referindo-se ao convívio com os demais crentes, pelo que passa a viver com “os hipócritas”. Outros entendem se tratar de uma metáfora, como quando se ameaça alguém de “lhe tirar o couro”, ou frases similares. Há também os que entendam se tratar apenas de um castigo severo. A palavra grega no texto é usada em outras passagens nas Escrituras para expressar o desmembramento de animais em rituais de sacrifício. No Livro de Jeremias, encontramos o termo quando Deus fala do castigo que seria aplicado a alguns em Israel:

Entregarei os homens que violaram a minha aliança, que não cumpriram as palavras da aliança que fizeram diante de mim, tratá-los-ei como o bezerro que dividiram em duas partes, e então passaram pelo meio das duas porções.9

Como defendem muitos comentaristas, não se trata de uma metáfora, mas de uma punição brutal, usada para chocar os ouvintes de forma que escolham fazer as decisões certas.

A expressão lhe dará a sorte dos hipócritas no Evangelho segundo Mateus equivale em Lucas a lhe dará a sua parte com os infiéis.10 É possível que Mateus ser referiu a “hipócritas” porque, ao longo do Evangelho por ele escrito, em particular no capítulo 23, os hipócritas tenham recebido uma condenação severa. A palavra neste contexto provavelmente parece ser um termo geral para todos os que fazem oposição a Deus. Choro e ranger de dentes expressa dor profunda e forte emoção. A expressão é usada sete vezes no Novo Testamento, mas aparece apenas nessa passagem no Evangelho segundo Mateus, referindo-se àqueles que rejeitaram Deus e são excluídos de Suas bênçãos no Tempo do Fim.

Há duas intepretações do significado dessa parábola ou a quem se dirige. Para alguns, é uma mensagem para os que detêm a liderança na igreja, pois foi contada aos discípulos, que se tornariam líderes da primeira igreja. Um autor explica:

Ao dizer que um escravo estava encarregado da propriedade e enfatizar a importância de cuidar dos demais durante a ausência do mestre, o texto ensina que os líderes da igreja devem cuidar corretamente da comunidade entre a ascensão de Jesus Cristo e Sua parousia. Esse cuidado adequado se traduz em um ministério de proclamação e ensinamentos.11

O servo que escolheu o caminho de liderança e se portou indevidamente equivale à liderança da igreja que age com egoísmo. As palavras do profeta Ezequiel oferecem uma visão clara desse tipo de líder:

Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas? Comeis a gordura, vestis-vos de lã, e degolais o cevado, mas não apascentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes, mas dominais sobre elas com rigor e dureza.12

Para outros estudiosos, a parábola fala aos cristãos em geral e não apenas aos que ocupam posições de liderança. Apresenta dois estilos de vida contrastantes no que diz respeito à fé. Existe a opção de sermos como o primeiro servo que diligentemente realiza seu trabalho. Sem se importar com a data de retorno de seu mestre, faz o que lhe fora pedido, de forma que o mestre o encontra pronto em seu retorno.

A segunda opção é ter a atitude do servo infiel, que trata o retorno do mestre como algo tão distante no futuro que não vê razão de se preocupar com o fato. Contudo, o mestre voltou e houve um acerto de contas.

Apesar de poder parecer se tratar de dois homens diferentes — um que faz escolhas certas e outro que toma decisões erradas —, a parábola diz respeito a apenas um servo diante de duas escolhas. A implicação é que cada crente deve escolher. Seremos fiéis ao Senhor? Praticaremos Seus ensinamentos? Estaremos prontos para a Sua volta, seja lá quando isso aconteça, ou quando nossas vidas terminarem? Ou cultivaremos a atitude do servo que viveu como se não houvesse contas a serem prestadas, mas, descobre que suas responsabilidades lhe serão cobradas?13 Obviamente, a escolha certa é a primeira — escolher fundamentar nossas vidas nos ensinamentos de Jesus, ter um relacionamento saudável com Deus, amar a Ele e os outros. Ao viver corretamente, seremos abençoados no presente e em toda eternidade.

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Notas de rodapé
  1. Mateus 24:3. (A menos que indicado o contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.)
  2. Mateus 24:30.
  3. Mateus 24:36.
  4. Mateus 24:44.
  5. Mateus 24:45–47.
  6. Ou escravo — ambas as traduções são corretas para a palavra grega doulos.
  7. Mateus 24:48–51.
  8. O Rico Insensato, Lucas 12:16–21; o Filho Pródigo, Lucas 15:11–32; O Administrador Injusto, Lucas 16:1–9.
  9. Jeremias 34:18.
  10. Lucas 12:46.
  11. Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2000), 162.
  12. Ezequiel 34:2–4.
  13. De modo que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus (Romanos 14:12).